Apocalipse

  • Ano: 2014
  • Técnica: fotografia / desenho

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"(...) o conjunto de obras apresentadas evidencia-se assim, embora de uma forma muito díspar, no domínio da tradição das representações trágicas, cuja marcada reverberação sobre o espectador Edmund Burke designou por sublime[1].

O cenário de catástrofe que se anuncia em Apocalipse irradia essa mesma reverberação: mediante estas abstrações geradas sem referente mas reconhecíveis aos nossos olhos como paisagens de grande riqueza estética, ressalta um sentimento vertiginoso, um assistido terror que fascina, um medo salutar que se prende com a auto-preservação, com a nossa consciente fragilidade e condição mortal, que se afirma como uma elevação negativa.

Com Apocalipse, uma espécie de fenda abre-se sobre a superfície plana da paisagem e com ela uma vastidão de possibilidades que, se por um lado, percorrem a disposição natural da atenção para o detalhe, para o fragmento, para um estilhaço de memória, por outro, traçam o caminho inverso do fim dos tempos[2] para o princípio[3] (...)"

Andreia César, 2016 (excerto retirado do texto "TREMOR")
 
[1] BURKE, Edmund, Uma Investigação Filosófica Acerca da Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo, Lisboa: Edições 70, 2013.
[2] Os Falsos Doutores in Bíblia Sagrada, ed. 18, Lisboa, Difusora Bíblica, 1995, p. 1608.
[3] Génesis in Bíblia Sagrada, ed. 18, Lisboa, Difusora Bíblica, 1995, p. 17.

  

 Exposição TREMOR | galeria BangBang, Lisboa, 2016 | curadoria de Andreia César

 

"Deixarmos o olhar vaguear por estas composições, é transportarmo-nos voluntariamente para este lugar sem tempo definido, talvez para um sonho sépia, negro e branco, num espaço que não conseguimos deixar de perguntar se será o nosso.

Como janelas premonitórias - ou como ensaios - o conjunto de imagens que compõem Apocalipse apresentam as consequências de um caminho definido pela entropia de um universo sem origem, profundamente marcado pela inevitabilidade de um fim (?). Por sua vez, a ausência de figuras, neste espaço que se sente tão profundamente habitado, faz pulsar o confronto do Homem consigo mesmo, com o mundo onde habita, com o seu criador.

É a voz do outro, indefinida, numa presença que vagueia, um rastro do que foi e a manifestação do que será. Um Apocalipse que se apresenta através de um rumor, rumor de um espaço ao abandono onde a inexistência carrega a História do ser. O ensaio do porvir."

 Ana Vieira Ribeiro, 2014