Anotação da montanha

Tenho boas razões para pensar que o planeta de onde o principezinho vinha era o asteróide B 612.

Saint-Exupéry, O Principezinho

Henrique Vieira Ribeiro mergulha nesta perfuração porosa e, do lado de lá, tateiam-se distâncias. O tempo encolhe, dobra-se, replica-se, estende-se. Anotados, os pontos perfurados existem, mas desaparecem como cicatrizes, sintomas do seu acontecer. Só o que se apresenta ao longe existe, o que se vive de modo mediatizado. A comunicação por vezes precisa de ruídos para se saber quem é. O aparelho, a eletricidade, o código. Ao longe, existo. Preciso de uma montanha para ouvir o meu eco. De um planeta, para saber quem sou.

O planeta de Paulo V. é um planeta de improbabilidade, como Niklas Luhmann enuncia: é tão difícil comunicar. Saint Exupery precisava de um avião que avariasse para nos explicar o mundo. Paulo V. esconde-se no fundo de uma assoalhada e coloca de fora uma antena. Só é possível comunicar dentro desta assoalhada, fazer amigos, estabelecer uma rede de pontos distantes, trocar lembranças do outro lado do mundo. Anotar as montanhas. Alguns antípodas sabem quem sou: eu não.

João Paulo Queiroz

   

 

  Mas não falemos de factos. Já a ninguém importam os factos,
são meros pontos de partida para a invenção e o raciocínio

 Jorge Luís Borges, Utopia de um homem que está cansado in O Livro de Areia

 

Paulo V. foi radioamador durante quatro décadas do século transato; o contacto inicial com o espólio acumulado ao longo deste período foi o mote para o questionamento e inquietação despoletada por esta atividade - o radioamadorismo. Cada mergulho nos seus livros, objetos, ou depoimentos, reforçou a consciência da existência de uma relação entre esta prática e a necessidade/motivação do ser humano em se transcender, em ultrapassar as suas limitações - questão transversal e recorrente na reflexão que tenho desenvolvido nos meus projetos autorais.

Deste projeto, iniciado em 2014, destaca-se o primeiro conjunto de obras, com incidência no gesto iniciático, no simbolismo e nas consequentes viagens virtuais que a prática do radioamadorismo potencia, sob a designação de CT1LN - Parte I: As Viagens de Paulo V.

Henrique Vieira Ribeiro